janeiro 13, 2004

O bólide vermelho – VII

(continuação)

Vou ver o filme da noite de cinema. Vera ainda berrou que era preciso arrumar a cozinha e lavar a loiça. Gonçalo, esse, que queria ver os desenhos animados do outro canal. Ora, Vera que limpasse a cozinha que ele já tinha feito o jantar, era justo. Gonçalo que fosse para a cama que não tinha idade para mais. De resto, o filme até prometia ser giro. E era o que faltava, um homem já nem era dono nem senhor na sua própria casa?

Refastelou-se no sofá.

Acomodava-se ainda quando um toque na campainha da porta o fez levantar a cabeça. Chatice!... E o filme que vai mesmo começar. Ó Vera, vai lá à porta! Vai tu, que estou na cozinha com as mãos sujas da loiça... Ó Gonçalo, vê lá quem é que tocou à campainha. Boa noite senhor Ramalho. Desculpe vir incomodar mas tive um curto circuito lá em casa, pode emprestar-me um busca-pólos que não encontro o meu? Era o vizinho do quinto esquerdo. Até nem era mau tipo de todo. Sempre sorridente, muito amável, muita conversa, a oferecer os préstimos a torto e a direito. Tudo para inglês ver pois, na prática, pouco ou nada fazia do que apregoava. Mas a vida era assim mesmo, um grande jogo de empurra e faz de conta e o vizinho do quinto esquerdo era dos poucos com quem até se podia conversar lá no prédio. Sim, porque com a maior parte da vizinhança, tudo nunca passava de bons-dias e boas-noites de conveniência, cinzentos e frios. E um bom punhado de vizinhos, a esses nem lhes conhecia a cara, apesar de ali morar havia uns largos anos. A verdade é que o espírito associativo ia desaparecendo da nossa sociedade, consumido na voragem do dia a dia. Agora vive-se uma vida num prédio altíssimo, encaixotado entre andares, sem saber se o vizinho do lado, que, por sinal, até nos despeja com o rádio em altos berros antes do sol raiar, é alto ou baixo, gordo ou magro. Do andar de cima sabemos apenas que tem miúdos irritantes que barulham e sapateiam o chão e os nossos ouvidos sonolentos. De outros andares mais altos só conhecemos a roupa que pinga água do estendal sobre a nossa janela e a nossa roupa. E da gente que vive abaixo de nós... Ah, mas aí vingamo-nos, toca a andar à vontade e fazer o barulho necessário, que isto ou há moralidade ou comem todos. A vida era assim mesmo, de resto, ninguém parecia incomodar-se com solidariedades ou não solidariedades no prédio e não era ele, Ramalho, que ia ficar preocupado com isso. Já bastavam as reuniões anuais da administração do prédio, sempre uma chatice a que poucos compareciam e, mesmo esses, unicamente preocupados em apresentar reclamações sobre problemas diversos e ficar à espera que alguém os resolvesse sem fazer ondas. A verdade é que toda a gente já trabalha muito, por isso, quando é preciso mais trabalho, o vizinho do lado é sempre o mais indicado e capaz.

Oh senhor Ramalho, sabe o que é? É que não encontro o busca-pólos nem sou muito entendido em electricidade. Pode dar um saltinho lá acima? Era cá um favor que me fazia... A voz sinuosa do vizinho. Porra de vida! Vá lá uma pessoa negar-se. É que nunca se sabe quando é a nossa vez de precisar. A merda toda é que com esta treta dos fusíveis do gajo do quinto esquerdo o filme já vai a meio e quem lhe entende agora o enredo? Um homem nunca tem uma satisfação completa.

Deixou-se ficar estendido no sofá. Deslizava-lhe o filme pela retina e pelo vago entendimento. Soavam-lhe as lamúrias de Gonçalo que não queria ir para a cama. Fazia por não ouvir as lamentações de Vera, armada em defensora da condição feminina, a clamar que a vida das mulheres era uma desgraça, só trabalho e trabalho, descanso e ajudas nenhumas. Se tivesse pachorra, levantava-se e fechava a porta da sala só para não os ouvir. Mas nem isso tinha. Deixou-se ficar estendido no sofá, as pernas moles e os braços sem força. Resvalaram-lhe pelas pálpebras entreabertas anúncios publicitários, a programação do dia seguinte, as previsões meteorológicas, fragmentos dispersos do último jornal. Levantou-se com um bocejo do tamanho do mundo e rumou para a cama pois já passava da meia noite.

Vera já dormia. Ficava bonita com o rosto corado pelo sono, farripas da franja sobre a testa, os cabelos claros espalhados pela almofada, um ar inocente de menina ainda. Sentia-lhe o calor da respiração ritmada, a onda suave do peito a pulsar, o fruto rosado da boca entreaberta. Esteve tentado em passar-lhe as mãos pelos cabelos, pelo pescoço, pelos ombros... Talvez ela despertasse... Talvez.... Não, não era justo. Vera andava cansada e já tinha adormecido. Apagou a luz fraca do candeeiro e virou-se para o outro lado.

Na escuridão, à espera do sono, lembrou-se do carro que conduzira em sonhos na noite anterior. Era lindo. Fora sonho mas que lhe importava? Sonhar, afinal, ainda era um luxo permitido. Sim, sonhar, que os sonhos às vezes eram maravilha. Recalcamentos, por ventura, ilusões, talvez. A verdade é que o prazer arrematado naqueles minutos de inconsciência dava-lhe forças no combate real do dia a dia. Seria?... Ou apenas o anestesiava?... Bem, o melhor era não se pôr com aqueles dilemas existenciais àquela hora adiantada da noite. Ainda ficava com insónias e, então, nem sono nem sonho. E ele queria dormir e sonhar. No fundo, uma leve esperança bailava-lhe na cabeça e acalentava-lhe o coração. Podia ser que um dia o sonho se tornasse realidade. E, na esperança de nessa noite dirigir mais uma vez o seu vermelho e veloz bólide, Ramalho adormeceu.


FIM

anamar – 1989

Este conto faz parte de uma colectânea premiada com uma Menção Honrosa na IV edição (2002) do Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, promovido pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém.

Publicado por vmar em janeiro 13, 2004 06:59 PM
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